O minério que vale ouro está presente em solo brasileiro. A dúvida que resta é se o país terá a ambição, a estratégia e o compromisso necessários para transformar essa riqueza em influência global.
Publicado em
30 de junho de 2025
Gálio e germânio se tornaram protagonistas silenciosos da nova corrida tecnológica global. Essenciais para a fabricação de semicondutores e equipamentos estratégicos, esses elementos estão no centro de tensões geopolíticas, principalmente após a China restringir suas exportações. Enquanto o mundo corre para garantir o suprimento, o Brasil — com potencial identificado — ainda não avança na exploração desses recursos. Entenda por que esse minério que vale ouro pode redefinir a geopolítica da tecnologia e colocar o país em posição de destaque no mercado internacional.
Desde agosto de 2023, a China impôs restrições significativas às exportações de gálio e germânio, exigindo licenças específicas para a saída desses minerais críticos. Ambos possuem aplicações civis e militares, sendo indispensáveis em chips, sensores infravermelhos, painéis solares e equipamentos de comunicação de alta performance.
A situação se intensificou em dezembro de 2024, quando Pequim anunciou a proibição direta de exportações para os Estados Unidos, em resposta às sanções norte-americanas relacionadas à indústria de semicondutores. Essa decisão abalou a cadeia de suprimentos global, forçando empresas de tecnologia, montadoras e fabricantes de armamentos a buscar fontes alternativas para garantir a continuidade de suas operações.
A China domina 98% da produção mundial de gálio refinado e entre 60% e 83% do germânio, conforme o tipo de extração (minério, óleo ou metal). Esse monopólio tornou-se uma vulnerabilidade estratégica para o Ocidente. Segundo o portal Mining.com, uma paralisação completa no fornecimento desses elementos poderia provocar um impacto econômico de até US$ 3,1 bilhões apenas nos Estados Unidos, comprometendo a produção de semicondutores e dispositivos eletrônicos.
Com as restrições, os preços dispararam. O gálio ultrapassou US$ 725 por quilo, mais do que dobrando em poucos meses. O germânio também teve valorização significativa, embora mais moderada. Essa escalada refletiu não apenas a escassez, mas também o temor de que novas interrupções no fornecimento possam ocorrer a qualquer momento, afetando indústrias inteiras.
A importância estratégica do gálio e germânio fez com que especialistas passassem a chamá-los de o minério que vale ouro para os semicondutores. Esses elementos são fundamentais para a produção de tecnologias de ponta, como painéis solares de alta eficiência, radares, lasers, sistemas de visão noturna, fibras ópticas e até equipamentos médicos.
O gálio é utilizado principalmente na forma de nitreto de gálio (GaN), um material semicondutor avançado que substitui o silício em aplicações onde se exige maior desempenho térmico e elétrico. Já o germânio é amplamente empregado em sensores, óptica de precisão e painéis solares espaciais.
Sem esses elementos, tecnologias críticas como redes 5G, satélites e sistemas militares ficariam comprometidas. Por isso, o fornecimento seguro desses insumos tornou-se uma prioridade para grandes potências.
Apesar da alta demanda e da valorização crescente no mercado global, o Brasil ainda não explora comercialmente nenhum projeto de gálio ou germânio. No entanto, há indicações claras de que o país possui reservas com potencial econômico.
O destaque nacional é o projeto Caladão, localizado na região de Carajás, no Pará. Estudos iniciais identificaram ali significativa presença de gálio associado a minérios de bauxita e zinco. Essa descoberta coloca o Brasil entre os poucos países com chances reais de desenvolver uma cadeia integrada de extração e refino desses elementos.
Segundo pesquisadores da USP e do setor de mineração, o país tem características geológicas favoráveis e poderia se tornar um fornecedor estratégico de minerais críticos — desde que haja investimento em infraestrutura, tecnologia e pesquisa.
O caminho para transformar potencial em realidade, porém, ainda é longo. O Brasil enfrenta entraves significativos que dificultam a entrada efetiva nesse mercado altamente competitivo.
Projetos como o Caladão necessitam de sondagens aprofundadas, estudos técnicos robustos e avaliações de viabilidade econômica e ambiental. O processo de licenciamento, complexo e demorado, também representa um gargalo para a evolução dos projetos.
Hoje, o Brasil não possui unidades industriais especializadas no refino de gálio e germânio. A separação desses elementos exige processos químicos avançados e equipamentos de alta precisão, que ainda não estão disponíveis no país.
Para tornar viável uma planta de refino, seriam necessários cerca de US$ 50 milhões. Embora esse valor seja modesto comparado a grandes projetos de mineração, o risco tecnológico e a falta de garantias de mercado afugentam investidores. Incentivos públicos, parcerias estratégicas e marcos regulatórios estáveis são essenciais para atrair capital.
O cenário internacional é claro: grandes economias querem diversificar seus fornecedores de minerais estratégicos. A dependência da China se tornou um risco, e países como Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e membros da União Europeia estão buscando novos acordos bilaterais.
O Brasil, com sua tradição em mineração, infraestrutura portuária consolidada e capital humano qualificado, tem uma chance real de entrar nessa nova rota de suprimentos. O governo federal já anunciou planos para reposicionar o país na cadeia de minerais críticos, com foco em terras raras, lítio, nióbio e, agora, gálio e germânio.
Entre as iniciativas, estão programas de mapeamento geológico, linhas de crédito para inovação, acordos de cooperação internacional e estímulo à produção sustentável.
A corrida global por autonomia tecnológica transformou o gálio e o germânio nos novos protagonistas da geopolítica mineral. Com o mundo cada vez mais digital e automatizado, a demanda por esses elementos tende a crescer exponencialmente nas próximas décadas.
O Brasil tem uma oportunidade única: transformar seu potencial mineral em protagonismo internacional. Para isso, precisa sair da zona de observação e partir para a ação. Isso inclui viabilizar projetos de extração, investir em plantas de refino, firmar parcerias estratégicas e fomentar pesquisa e inovação no setor mineral.
O minério que vale ouro está presente em solo brasileiro. A dúvida que resta é se o país terá a ambição, a estratégia e o compromisso necessários para transformar essa riqueza em influência global.
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2 meses atráson
17 de novembro de 2025
A edição 2025 da Expominério terá uma das programações mais completas do setor mineral no país, reunindo ao longo de três dias, entre 26 e 28 de novembro, um total de 17 painéis distribuídos entre os auditórios Minerais e Flores, do Cento de Eventos do Pantanal.
Os debates abordam desde tendências geopolíticas e minerais críticos até desafios ambientais, novas tecnologias, relações comunitárias, políticas públicas e o futuro da mineração sustentável em Mato Grosso e no Brasil. Para um dos organizadores do congresso, Humberto Paiva, a edição deste ano consolida um novo patamar de articulação técnica e institucional.
“Reunir 17 painéis em três dias reforça o propósito da Expominério de ser um espaço real de construção de conhecimento e de diálogo qualificado. A cadeia mineral vive um momento de transformação profunda, em que tecnologia, sustentabilidade, segurança jurídica e participação social caminham juntos. Nossa intenção, ao trazer especialistas de diferentes áreas, é criar um ambiente que permita entender os desafios, apresentar soluções e aproximar cada vez mais o setor das demandas da sociedade”, afirma.
O evento começa na quarta-feira (26.11), às 8 horas, no Auditório Minerais, com a abertura oficial do ciclo de palestras do IEL e segue para discussões sobre minerais críticos e estratégicos na transição energética, governança e regulação do setor, mineração de gemas, diversidade e inclusão nas operações e os desafios tributários da atividade. Especialistas de diferentes áreas farão análises sobre o momento atual da mineração e os cenários projetados para os próximos anos.
Na quinta-feira (27.11), às 08h30, os painéis tratam dos desafios da mineração diante da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, das relações entre mineração e comunidades, dos conflitos socioambientais e dos avanços tecnológicos aplicados à cadeia produtiva, incluindo energia solar e inovação para eficiência das operações. A programação segue até o início da noite, quando será realizada a palestra magna com o professor titular da USP, Fernando Landgraf.
Ao mesmo tempo, o Auditório Flores recebe o encontro temático “Mercúrio: Olhando Juntos para o Futuro”, organizado pelo Instituto Escolhas. O dia será dedicado à discussão regulatória, análises sobre o futuro da mineração artesanal, apresentação de casos reais de transição para métodos livres de mercúrio e debates sobre alternativas tecnológicas. Representantes de entidades, pesquisadores, lideranças do setor e especialistas internacionais participam das mesas, reforçando o caráter multidisciplinar do encontro.
No último dia da Expominério (28.11), o congresso encerra com discussões sobre investimentos e dinâmicas do mercado de ouro, políticas de desenvolvimento mineral para Mato Grosso, avanço dos mapeamentos geológicos e a importância dos agregados da construção civil para a infraestrutura estadual.
Os últimos debates tratam da produção de minerais críticos a partir de rejeito e da empregabilidade e desenvolvimento socioeconômico na mineração, antes do encerramento oficial da Expominério 2025, previsto para as 22h.
A Expominério 2025 será realizada de 26 a 28 de novembro, no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá.
Patrocinador Oficial: Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec). Também apoiam o evento a Fecomin e a Fomentas Mining Company (patrocinadores Ródio), Nexa Resources, Keystone e Brazdrill (Diamante), Aura Apoena, Salinas Gold Mineração e Rio Cabaçal Mineração (Ouro), além da GoldPlat Brasil e Ero Brasil (Prata).