ESG é visto como o maior risco para o setor de mineração e metais no Brasil
Publicado em
14 de julho de 2023
por
Por Beatriz Capirazi, Estadão
O ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa) é considerado o maior “risco” e, ao mesmo tempo, a maior “oportunidade” para o setor de mineração e metais no Brasil, segundo um estudo da consultoria EY e do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração).
Em seguida vêm os riscos e oportunidades ligados à geopolítica, mudanças climáticas, a licença para operar, custos e produtividade, interrupções na cadeia de suprimentos, força de trabalho, capital, digital e inovação e novos modelos de negócios.
Especialistas destacam que o setor, mesmo tendo passado por mudanças significativas nos últimos anos pressionado pelo poder público e pela indústria privada, ainda é tido como um dos mais poluentes — considerando os riscos referentes aos impactos da mudança climática, como enchentes, crises no sistema elétrico e falta de água potável.
Com isso, a ascensão da agenda ESG, que tem como uma das principais bandeiras o meio ambiente, se torna um risco para o setor, que tem de se adequar a diversas normativas para conseguir recursos de bancos e fundos de investimentos, segundo o doutor em economia dos recursos naturais e professor da Universidade de São Paulo (USP), Luis Enrique Sánchez.
“Se o setor precisa de recursos, tem de demonstrar que possui um sistema robusto de gestão ambiental. O setor financeiro tinha pouco conhecimento dos riscos da mineração e foi surpreendido com os dois grandes casos”, afirma, se referindo às tragédias de Brumadinho e Mariana.
Tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, aconteceu em janeiro de 2019. Foto: Wilton Junior/ Estadão
Para ele, a transição do setor tem relação direta com a ascensão do ESG. “A agenda e a legislação mais fortes pesaram para essa transição para uma economia sustentável, assim como o crescente interesse da própria sociedade aos riscos da mineração e uma atenção maior dos investidores.”
“Se o setor de mineração não for responsável, não vai ter licença para operar. As mudanças vêm não porque é um setor bonzinho, mas da necessidade pela pressão que a sociedade e os governos têm feito”, afirma o líder de energia e recursos naturais da EY, Afonso Sartorio.
Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) houve avanços, de fato, mas a mineração continua a ser um setor poluente e que enfrentará muitas dificuldades. “Eu tenho o entendimento de que essa perspectiva não vem mudando e não vai mudar a curto prazo.”
Segundo ele, toda vez que há um novo projeto de mineração de médio e grande porte, as empresas têm dificuldade em avançar com o projeto e dialogar com as comunidades. “Eles encontram dificuldades que não ocorriam no passado. Está mais difícil e esse é um dos motivos para a valorização da agenda ESG.”
O especialista da EY destaca que, embora uma mudança para uma cadeia mais sustentável esteja acontecendo, as pessoas muitas vezes não percebem essa mudança por terem um “preconceito” com o setor. “Acho que as pessoas são mais céticas ao ouvir notícias da indústria de mineração. Em função de problemas, alguns graves, já ocorridos e que envolveram a mineração.”
Sartorio, no entanto, destaca que as comunidades próximas dos locais onde existe mineração querem o setor próximo. “Existe uma diferença do que o carioca da zona sul entende de mineração e a população vizinha. Gera trabalho e renda.”
“Não quer dizer que não existam situações de tensões, de risco, de barragem que tem que ser tratadas. A questão é que a mineração não fez o trabalho que o agro fez. Antes, era visto como o pessoal das queimadas, dos boias-frias, hoje é ‘pop’. A mineração não percorreu esse caminho.”
Para ele, falta esta mudança para que a sociedade enxergue a relevância do setor, considerado um dos setores mais influentes na economia brasileira, produzindo e comercializando para quase todo tipo de indústria no País. Em 2022, a mineração foi responsável por 40% do saldo brasileiro na balança comercial e o faturamento do setor no ano foi de R$ 250 bilhões.
ESG pode ser oportunidade para o setor
Especialistas apontam que a crescente busca por minerais produzidos de maneira mais limpa apresenta novas oportunidades de negócio, uma vez que os clientes estão dispostos a investir mais em tais produtos.
Sartorio afirma que a relevância do setor na cadeia produtiva brasileira leva o ESG a ser visto também como uma oportunidade para o setor. “As empresas mais estruturadas conseguem usar como uma oportunidade”, disse, destacando, no entanto, que no contexto ambiental que o Brasil se encontra, a adaptação do setor não é uma escolha, mas algo essencial.
Para o professor da USP, a sustentabilidade pode ser uma boa oportunidade para o setor, considerando o crescimento da demanda prospectado por várias entidades. “O setor de mineração está muito ligado nas projeções de um aumento da demanda de bens minerais por conta da descarbonização e transição energética.”
No entanto, o especialista da EY defende que estar em conformidade somente com a legislação e regulamentação referentes já não é suficiente em um ambiente que os consumidores esperam, segundo ele, um “valor compartilhado com real impacto positivo”.
“É sim ou sim. Precisa ser uma oportunidade, tanto para a humanidade, quanto para o próprio setor. A humanidade não vive sem a mineração. Se for um risco, como essas as milhões de pessoas vão conseguir ter garfo? Como os países pobres vão elevar o seu padrão se a mineração for uma atividade de risco?”, afirma.
Assim como em outros setores, Sartorio destaca que uma modificação efetiva leva tempo, principalmente para haver mudanças de maquinário e práticas específicas — que dependem de uma transformação de todas as empresas, inclusive dos fornecedores.
Para ele, no entanto, a mudança já está acontecendo. Sartorio destaca que as principais apostas do setor têm sido investir na redução de carbono e na reciclagem de produtos. Outra tendência sustentável que deve se consolidar no mercado é o rastreio da pegada de carbono nas empresas de varejo, forçando uma mudança também no setor de mineração.
“As empresas de consumo vão ser pressionadas a rastrear os seus produtos até a origem, da onde ele saiu, qual o solo, como ele foi processado, quanto emitiu de carbono. As empresas que tiverem soluções inovadoras que atenderem a essa direção e consigam rastrear as suas cadeias vão ter uma vantagem competitiva enorme.”
A edição 2025 da Expominério terá uma das programações mais completas do setor mineral no país, reunindo ao longo de três dias, entre 26 e 28 de novembro, um total de 17 painéis distribuídos entre os auditórios Minerais e Flores, do Cento de Eventos do Pantanal.
Os debates abordam desde tendências geopolíticas e minerais críticos até desafios ambientais, novas tecnologias, relações comunitárias, políticas públicas e o futuro da mineração sustentável em Mato Grosso e no Brasil. Para um dos organizadores do congresso, Humberto Paiva, a edição deste ano consolida um novo patamar de articulação técnica e institucional.
“Reunir 17 painéis em três dias reforça o propósito da Expominério de ser um espaço real de construção de conhecimento e de diálogo qualificado. A cadeia mineral vive um momento de transformação profunda, em que tecnologia, sustentabilidade, segurança jurídica e participação social caminham juntos. Nossa intenção, ao trazer especialistas de diferentes áreas, é criar um ambiente que permita entender os desafios, apresentar soluções e aproximar cada vez mais o setor das demandas da sociedade”, afirma.
O evento começa na quarta-feira (26.11), às 8 horas, no Auditório Minerais, com a abertura oficial do ciclo de palestras do IEL e segue para discussões sobre minerais críticos e estratégicos na transição energética, governança e regulação do setor, mineração de gemas, diversidade e inclusão nas operações e os desafios tributários da atividade. Especialistas de diferentes áreas farão análises sobre o momento atual da mineração e os cenários projetados para os próximos anos.
Na quinta-feira (27.11), às 08h30, os painéis tratam dos desafios da mineração diante da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, das relações entre mineração e comunidades, dos conflitos socioambientais e dos avanços tecnológicos aplicados à cadeia produtiva, incluindo energia solar e inovação para eficiência das operações. A programação segue até o início da noite, quando será realizada a palestra magna com o professor titular da USP, Fernando Landgraf.
Ao mesmo tempo, o Auditório Flores recebe o encontro temático “Mercúrio: Olhando Juntos para o Futuro”, organizado pelo Instituto Escolhas. O dia será dedicado à discussão regulatória, análises sobre o futuro da mineração artesanal, apresentação de casos reais de transição para métodos livres de mercúrio e debates sobre alternativas tecnológicas. Representantes de entidades, pesquisadores, lideranças do setor e especialistas internacionais participam das mesas, reforçando o caráter multidisciplinar do encontro.
No último dia da Expominério (28.11), o congresso encerra com discussões sobre investimentos e dinâmicas do mercado de ouro, políticas de desenvolvimento mineral para Mato Grosso, avanço dos mapeamentos geológicos e a importância dos agregados da construção civil para a infraestrutura estadual.
Os últimos debates tratam da produção de minerais críticos a partir de rejeito e da empregabilidade e desenvolvimento socioeconômico na mineração, antes do encerramento oficial da Expominério 2025, previsto para as 22h.
A Expominério 2025 será realizada de 26 a 28 de novembro, no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá.
Patrocinador Oficial: Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec). Também apoiam o evento a Fecomin e a Fomentas Mining Company (patrocinadores Ródio), Nexa Resources, Keystone e Brazdrill (Diamante), Aura Apoena, Salinas Gold Mineração e Rio Cabaçal Mineração (Ouro), além da GoldPlat Brasil e Ero Brasil (Prata).
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